O que acontece quando o centro de gravidade da moto está muito alto?
O pessoal da fábrica explica: a moto fica menos estável. Vai ser mais difícil sair da curva. Aumenta o risco de levar um tombo. Ou pior: de atropelar alguém.
Entregadores aceitam esse tipo de carga porque a remuneração deles é vil. Passam o dia correndo de um lado para o outro, costurando no trânsito, para ganhar um punhado de reais desvalorizados.
O garoto que está na boléia é um infrator, corre o risco de virar um criminoso se atropelar e matar. Um juiz rigoroso pode entender que houve dolo eventual, isto é, que ele assumiu o risco de tirar a vida de alguém nessa moto difícil de governar.
Um juiz mais bondoso vai considerar que ele apenas tinha excesso de confiança na própria habilidade em cima da moto.
No primeiro caso, ele é enquadrado no artigo no Codigo Penal. Cadeia brava, escracho no jornal e no site dos criminosos.
No segundo, a pena é bem menor, pelo Código de Trânsito.
Quem contrata o serviço dele é um aplicativo distante dessa tragédia. Uma megaempresa em busca de lucros. Os donos inimputáveis são milhares de acionista globais, incluindo empresas de capital de risco sediadas alhures.
É isso?
É isso, mas não é só isso. No Direito Penal contemporâneo existe a Teoria do Domínio do Fato, de Claus Roxin. Para o Tribunal de Nuremberg, onde a teoria foi aplicada inicialmente, um comandante de campo de concentração que passa o tempo livre cuidando de roseiras no jardim do lado de cá do muro é tão culpado quando o carrasco que abre a válvula da câmara de gás. Ele sabia o que estava acontecendo e tinha o poder de deter a mão do carrasco.
O comandante nazista era o homem por trás do evento. Hoje esse homem pode ser o CEO que orienta o algoritmo a estabelecer prazos de entrega cada vez mais estreitos e pune a baixa produção com a “geladeira”. O motoboy subalimentado então acelera e causa a tragédia.
Vale repetir: o CEO que estabelece os objetivos de lucro da empresa não é apenas o chefe dos engenheiros que escrevem o algoritmo – ele é o possível coautor do crime de homicídio com dolo eventual.
Para isso é preciso que o Ministério Público prove que o CEO usou a estrutura corporativa com a intenção deliberada de aumentar o lucro, com total indiferença para a condição humana do motoqueiro e do pedestre atropelado.
O CEO pode alterar as exigências desumanas do algoritmo assim como o comandante do campo de Auschwitz podia deter a mão do carrasco.
Há duas maneiras de entender a história do Coritiba Foot Ball Club. Uma é mergulhar em documentos do começo do século, com o registro das reuniões dos associados, dos jogos e promoções sociais e das obras que resultaram na construção dos estádios do clube. Outra é consultar “A História do Futebol Paranaense”, do professor Francisco Genaro Cardoso, um livraço de 450 páginas publicado pela Editora Grafipar em 1978.
As duas abordagens são boas, mas a segunda é mais interessante. Página após página a vida dos clubes é desenhada com muito respeito aos fatos dentro do contexto do futebol daquele tempo, que era um futebol desrespeitoso, de dirigentes claudicantes, árbitros meio desonestos, campeonatos meio desorganizados.
Não foi fácil publicar o livro, trazê-lo a lume, como se dizia na época. Vinicius Coelho conta que durante meses Cardoso, originais debaixo do braço, perambulou de editor em editor, pediu ajuda oficial, conversou com empresários e presidentes de clubes. Nada, até que apareceu o mecenas Luiz Gonzaga da Motta Ribeiro, dono do Tabelionato Motta, decidido a fazer uma grande administração na Federação Paranaense de Futebol, e mandou imprimir o calhamaço.
O acadêmico Valfrido Piloto, 1,94 de altura, outro apaixonado pelo esporte, analisa o livro, que é um presente para os historiadores do futebol, e garante que a parte mais importante dele não é a impressa – são os arquivos que Genaro Cardoso organizou durante décadas e que continuam aí, bem guardados. Tornaram-se porto seguro para dirimir dúvidas sobre a prática do velho e rude esporte bretão no Paraná. “Ele conhece, garante e prova tudo”, assegura Piloto, que também era delegado de polícia e entendia de provas.
Francisco Genaro Cardoso era o “Helênico” das colunas da Gazeta do Povo Esportiva, onde foi secretário e editor. E é o Helênico inspirador do grupo de pesquisadores que mantêm atualizada a história do clube mais antigo do Paraná.
Não é exagero dizer que ele moldou a forma de pensar o esporte da geração que saiu das universidades durante o Estado Novo e que viveu a idade de ouro do rádio. Formado em Direito na turma de 1937 da Universidade do Paraná (que só seria federalizada em 1951) tinha colegas ilustres. Um deles, o desembargador Henrique Nogueira Dorfmund, foi presidente do Tribunal de Justiça onde atuavam Alceste Ribas de Macedo, Eurico Pereira de Macedo e Heliantho Camargo.
Outro colega de peso era José Muggiati Sobrinho, que Piloto chama de Pajé do Futebol Indígena. Da pajelança de Muggiati nasceu não só a Gazeta do Povo Esportiva como o Paraná Esportivo, cuja coleção é uma das poucas fontes à disposição do público digital. O jornal foi escaneado página por página pela Biblioteca Nacional e pode ser consultado em memoria.bn.gov.br.
Vale a pena conhecer o outro lado do professor Genaro Cardoso, atuante no magistério. Lecionou Português e Literatura Portuguesa no Colegio Estadual do Paraná, na Escola Tecnica de Comércio que funcionava no prédio da Universidade, entrada pela rua Presidente Faria. Aceitou o convide de professor Alfredo Parodi e de Dona Isabel e tornou-se orientador da cadeira de Português do Colégio Iguassu – assim mesmo, com dois ss – durante mais de trinta anos. Foi ainda Inspetor Federal de Ensino e durante muitos anos presidente do Sindicato dos Professores do Paraná.
Era um lider, tanto que, naquele horror do golpe de 1964, mandaram um tenente prendê-lo. Parece que era coordenador de uma treta subversiva chamada PUA, nome ameaçador do Pacto de Unidade e Ação que unia os sindicatos dos professores, jornalistas e bancários, gente de paz, desarmada. Em caso de greve, um ajudaria o outro. O tenente não acreditou que fosse só isso e levou-o para o cárcere improvisado no quartel da Polícia do Exército, na praça Rui Barbosa, no dia 3 de abril de 1964. Seria talvez encaminhado aos porões da ditadura, mas seus amigos, tendo à frente Valfrido Piloto, intercederam a tempo.
Francisco Genaro Cardoso deixou a militância sindical e voltou para os arquivos. Identificou personagens que apareciam em fotos emboloradas, mostrou o contexto de velhos relatórios cobertos de ácaros, achou fichas de atletas abandonadas em algum sótão. O que há de registro sobre o futebol dos anos 1920, 1930 é em grande parte devido a ele e a seu grupo de arqueólogos da história.
E há também o relato meticuloso de episódios envolvendo jogadores, cartolas, técnicos e todo o mundo do futebol. No campeonato de 1971, por exemplo, a Polícia Federal aprendeu, em Foz do Iguaçu, uma Kombi que transportava mercadorias não registradas, algumas dentro de malas. Abertas as malas apareceram comprimidos do psicotrópico Prelundim. O casal dono da Kombi assustado entregou o destinatário da droga. “Tem 900 comprimidos para o União Bandeirantes, adquiridos a pedido do médico do clube”. O médico era um certo doutor Lisboa, o Lilão, funcionário há 15 anos da família Meneghel, proprietária da Usina de Açúcar União e praticamente dona do clube de futebol Bandeirantes.
Escândalo. Manchetes nos jornais, bate-boca nas rádios. No fim não deu em nada. Ninguém conseguiu ou teve interesse em provar a ligação entre o clube e os Meneghel. E logo apareceu um documento dizendo que Lilão não era mais médico do Bandeirantes. Tem mais detalhes na “História do Futebol do Paraná”.
“Helênico nasceu com o futebol nas veias”, garantia Albenir Amatuzzi, editor de esportes do Estado do Paraná e da Tribuna do Paraná, e uma espécie de sobrinho torto de Rei, craque do Coritiba, do Vasco da Gama e da Seleção Brasileiro, de quem vai se falar adiante.
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(Trecho de Coxa – Desde que a Bola é Bola, livro em construção)
A região até agora é considerada um barril de pólvora. Com o acordo Trump-Mohammed bin Salman vai ter a possibilidade de ser um depósito de bombas de urânio 235.
Por enquanto, só a Westinghouse está feliz com a notícia, que vazou após o encontro do presidente dos EUA com o chefe do governo saudita. Ela é a empresa que pode vender tecnologia para a construção do reator nuclear saudita.
Lembrando que a Arabia Saudita não reconhece a existência do Estado de Israel.
Em setembro de 2015 Curitiba aprovou lei proibindo a circulação de veículos de tração animal.
A mesma lei prometeu auxílio para as famílias de catadores (eram 150 na época) que dependiam desses veículos para seu sustento.
O auxílio parece que não veio.
Hoje os veículos são de tração humana.
Como no tempo da escravidão.
Não há na Câmara Municipal projeto proibindo a circulação de veículos de tração humana, mas nenhum partidário do higienismo deve ficar preocupado.
Li no site da Prefeitura declaração do Superintendente Garret confirmando o “compromisso das instituições com a construção de políticas públicas mais inclusivas e com o fortalecimento de ações que promovam uma mobilidade urbana mais segura, equitativa e acessível”.
O senador Lindsay Grahan era considerado o melhor amigo de Trump, se é que esse cargo existe.
Morreu sábado de dissecção aortica. Instantaneamente. Fui perguntar o que é isso. No site do doutor Drauzio Varela uma explicação: é o rompimento da parte externa da aorta, a artéria mais importante do corpo humano.
O problema é mais incidente em homens a partir dos 60 anos. Arteriosclerose (endurecimento das artérias) e hipertensão são fatores de risco importantes e estão presentes em 75% dos casos.
Não perguntei mais nada. Fui completar os 7.000 passos no Bosque do Papa.
Os jogadores não reclamam publicamente do calor e da umidade de Miami. Bellingham reclama.
O técnico da Inglaterra é Thomas Tuchel, um alemão durão.
Terminou o jogo com a Noruega, vitória de 2 a 1 dos ingleses, ele meteu a boca na equipe. Disse que não gostou da moleza em campo, da falta de velocidade e dos erros cometidos.
Normalmente os jogadores ouvem calados essas reclamações. Mas Bellingham, o craque autor dos dois gols, respondeu de bate-pronto.
“Talvez ele não saiba o que é jogar contra o Haaland e o Odegaard com esse calor e umidade”
Uma alfinetada na modesta carreira de Tuchel como jogador.
A discussão sobre o jogo Inglaterra versus Noruega não deve focar a bola; deve jogar um poderoso spotlight no termômetro e no higrômetro.
O calor mata. O calor com umidade alta mata muito mais.
Quem já andou nas ruas de Cuiabá em dia de calor conhece essa sensação: calor e umidade. O corpo quer suar e não consegue – a gente fica cada vez mais quente por dentro.
Aquele estádio de Miami é pior do que a rua de Cuiabá porque é todo fechado, o ar não circula, e não possui um sistema de refrigeração como o de Dallas, por exemplo.
Não li uma linha sobre o alarmante número de vítimas do calor entre os torcedores.
Horas antes, apareceu no site da Exame: “Noruega x Inglaterra pode ser cancelado devido a calor extremo nos EUA · Previsão indica sensação térmica de até 44°C no horário da partida”.
Depois moita.
Não é bom falar no assunto, assim como não era bom reclamar ao imperador romano do perigo de vida que os gladiadores corriam ao entrar no Coliseu.
Nem a Globo, nem a ESPN, muito menos a Cazé TV, que comemorou os 21 milhões de aparelhos ligados na hora do jogo que transmitiu com exclusividade e os dois bilhões faturados na competição.
O título é da Marina Hyde no Guardian. Na verdade, ela falou de “malandragem mal sucedida” mas acho que “malandro mal sucedido” pega melhor.
A palavra que ela usa é chicanery, que dá chicana em português. Malandragem jurídica para atrasar ou anular processos judiciais.
Ela conta que a torcida aplaudiu de pé a derrota dos EUA. E comenta: a última vez que tantas pessoas aplaudiram a Bélgica foi na 1ª Guerra Mundial, em 1914, quando a resistência belga conteve os alemães que acabavam de atravessar o rio Meuse.
Trump é um chicaneiro. Está sendo gozado na internet porque pediu a anulação do cartão vermelho dado no jogo anterior ao craque B….., por falta violenta.
Acha que pode tudo, pobre coitado, mas não consegue influir em um reles joguinho de oitavas de final. (Também não consegue derrubar o regime dos aiatolás, nem obrigar aquele gordinho da Coreia do Norte a parar de fabricar mísseis atômicos, mas essa é outra história.)
O importante é a atitude de B…, que aceitou o benefício da Fifa e entrou em campo. Tentou fazer gol, os belgas não deixaram. Se B… tivesse caráter, fosse um daqueles craques éticos do Coelho Neto, não entrava em campo porque o futebol é um jogo de gente decente.
Coelho Neto (1864-1934) imortal torcedor do Fluminense via o futebol como instrumento cívico de regeneração social e moral. A ética esportiva, garantia, vai lapidar o caráter do jovem brasileiro.
Passamos agora a outro momento da Copa, aqueles minutos finais de Brasil e Noruega, quando os onze jogadores trocaram passes mecanicamente diante da defesa da Noruega, que está longe de ser a melhor do mundo. Parecia que estavam ganhando.
Entendi logo que estava diante de uma disanalogia – nossos onze continuaram a tocar a bola como os oito integrantes da orquestra do Titanic continuaram a tocar seus instrumentos enquanto o transatlântico afundava.
Eis a disanalogia que nos envergonha: os músicos esperavam, com suas valsas e polcas, acalmar os passageiros em pânico e permitir que o maior número fosse salvo. Os boleiros esperavam que o juiz apitasse o fim do jogo para correr ao vestiário e dali a seus aviões de volta à Europa, aos Lamborghinis, às ruas seguras.
Nenhum entrou no avião da volta ao Brasil. Correção: só Danilo, que joga no Flamengo, voltou no avião da CBF. Nem Ancelotti estava a bordo.
Desconfio que o capo da seleção tem medo dos dirigentes. E se alguém envenenar seu uísque para não ter que cumprir mais quatro anos do contrato de cinco milhões por mês?