Reflexões ambientalistas

No tempo do Mateus Leme havia mil pinheiros para cada curitibano.

Agora há mil apartamentos para cada pinheiro.

E o pinhão foi para 17 o quilo.

Pense nisso.

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DEFENDENDO GONET

É fácil defender Gonet. Basta comparar sua mentirinha sobre charutos e uísque 18 anos, com, por exemplo, as mentiras cruéis de Bolsonaro, que levaram centenas de milhares de brasileiros a não tomar vacina contra a Covid 19.

E morrer.

O que está na balança da Justiça, então, é isso – uma mentira monstruosa contra uma mentirinha para salvar a imagem?

Do pronto de vista prático, sim. São tantas as mentiras em circulação que uma pequena falta com a verdade é só uma sujeirinha de mosca na biografia.

Assim mesmo, complica o quadro geral.

A dissonância deliberada entre os fatos e as afirmações alimenta uma espécie de podridão que corrói os alicerces epistemológicos e éticos do nosso mundo e das nossas vidas. A frase é do historiador Robert Zaretzky.

Ele dialoga com Hannah Arendt, que escreveu: “A sinceridade nunca foi tida como virtude política, enquanto a mentira foi vista como algo justificável na negociação política”.

Ela também achava que há mentirinhas e mentiras monstruosas, desumanas.

Juscelino Kubischek teve dois enfartes e proibiu a divulgação deles. Um político enfartado é um animal ferido. Os adversários avançarão em alcateia para acabar com ele.

A biografia de Brizola, fantástico trabalho de investigação e análise de Karla Monteiro, revela pecados do líder (inclusive o affair com a filha de um companheiro de partido) que, se fossem parar nos jornais, certamente prejudicariam sua luta política. Foi preciso mentir. Aqui a mentira defendia interesses comuns.

Todos nós temos na vida
Um caso, uma loura
Você, você também tem.

(“Uma loira”, Hervê Cordovil, gravação de Dick Farney)

Uma coisa precisa ficar bem clara, gente: mentir não é para amadores. Exige competência. E memória. E senso da realidade.

Era razoável, inteligente, dizer que nunca teve intimidades com Vorcaro? Não se lembrava Gonet do encontro em Londres, ou achava que Londres é a capital de outra galáxia e ninguém nunca haveria de saber?

Na primeira hipótese, a falta de memória pode ser uma condenação à Casa de Repouso: “Fulano não se lembra do que comeu no almoço”.

A segunda, a má avaliação do risco, é menos grave. Em 2024, Vorcaro ainda não era um personagem muito radioativo. Além disso, “foi um encontro fortuito”.

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P.S. Ilustração da IA do Google

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A Isabela está de aniversário. Mandei fazer um bolo

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QUESTÕES ECONÔMICAS

A moça que supostamente prestou serviços sexuais ao Nunes Marques em uma cobertura de luxo na rua Leopoldo, Itaim, São Paulo, cobrou 10.

Não é pouco.(*)

Entretanto, deve-se considerar que, pela sua atividade peculiar, a moça necessita amplo guarda-roupa, sapatos finos, colares, brincos e outros adereços.

Logo irá a uma dessas lojas chiques e comprará algo.

A tradição da mercadoria vai gerar comissão para a vendedora, impostos para o governo, além de lucro para a casa comercial.

A vendedora somará essa comissão a outras que ganhou em setembro e irá ao atacarejo onde viu uma TV de 50’ por 3.

A dona da loja verificará o movimento do trimestre e concluirá que há recursos para chamar o decorador, o marceneiro e o eletricista. Deem um up no visual.

O decorador, o marceneiro e o eletricista irão ao bar discutir o novo visual da loja chic e tomar umas.

No Ministério da Fazenda, cujos computadores controlam tudo com olho de Grande Irmão, um economista exultará – oba! O quadro econômico não é nada mau. (**)

Recentemente, O Office for National Statistics (ONS) passou a contabilizar o mercado do sexo nas suas contas oficiais da Inglaterra. Estudos publicados até agora estimaram que a indústria do sexo somava cerca de 4,3 a 5,3 bilhões de libras por ano à economia britânica, o que representava um aumento de aproximadamente 0,4% a 0,5% do PIB nacional.

Outros países desenvolvidos fazem o mesmo.

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Resumo: o PIB subiu, o Nunes supostamente se divertiu, a vendedora tem uma nova TV, a loja de luxo ficou mais bonita, o decorador, o marceneiro e o eletricista ganharam o mês –  como é que tem gente falando mal do STF?

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(*) – O nome dessa figura de pensamento é litotes – chamar alguma coisa pelo seu contrário.

(**) – Outro litotes.

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P.S. – Ilustração gerada pela IA do Google

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Saiu no Pasmado

…e eu estou com uma baita inveja de não ter tido essa ideia.

Mais em Pasmado <pasmado@substack.com>

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A República se diverte

A história da Festa das Suiças é um dos melhores textos que já li. Como jornalismo é perfeito. Como literatura, melhor ainda.

Está em https://piaui.uol.com.br/web/festa-suicas-vorcaro-fabio-faria/

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Não foi um 3 a 3. Foi um Jogo com a Morte

A manchete do Atletiba não deve falar em “empate heroico”, nem em “guerra de torcidas”. Deve dizer: Milagre no Alto da Gloria: Chuva de raios não faz vitimas

O sistema Simepar registrou ontem a quantidade impressionante de 35 mil descargas elétricas durante o período. Em Curitiba foram anotadas oficialmente 58 quedas de raio nuvem-solo.

Se uma descarga elétrica caisse sobre um jogador ou sobre um dos mais de 30 mil torcedores presentes no Couto Pereira quem responderia penalmente pelo crime de colocar em risco a vida de milhares de pessoas? Wagner Magalhães, um administrador de empresas de 47 anos, que apita desde os 21 e está perto da aposentadoria.  

É muita responsabilidade para um homem só.

Magalhães demorou oito minutos para iniciar o jogo. Depois, decidiu que as condições meteorológicas eram boas – os raios continuavam caindo na região – e que o gramado apresentava condições de jogo.

Contrariou pedido formal feito pelas diretorias do Coritiba e do Atlético e pelos técnicos das duas equipes.  Odair Hellmann: “É uma irresponsabilidade”.  Fernando Seabra: “Antes de a bola rolar, eu e o Odair falamos com o árbitro. O gramado estava perigoso e os raios representavam um risco real à vida de todos ali. Sugerimos adiar para a Data FIFA. A arbitragem preferiu arriscar”.

Durante a semana, a CBF informou que a data e horário eram uma decisão da entidade em acordo com a Rede Globo, detentora dos direitos de transmissão.

Parece que Wagner Magalhaes goza da confiança da CBF e é escalado para grandes jogos. Não importa que tenha acumulado ao longo da carreira algumas decisões contestadas por grandes clubes.

Alguém da CBF disse a ele para iniciar o jogo. A Globo precisava das imagens. Apesar dos raios? Apesar dos raios.

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Ilustração gerada pela IA do Google

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Reflexão sufragista

Lendo algumas pesquisas que estão nos jornais, nos sites e nas rádios, lembro uma observação de Chistopher Hitchens.

Q uando descobriram que o presidente Ronald Reagan tinha câncer de cólon, um grande jornal decidiu fazer uma enquete entre seus leitores. Eles foram solenemente indagados se, na opinião deles, o câncer seria a) curado; b) teria uma recidiva: c) entraria em remissão.

Vamos combinar, gente: nem os entusiastas da ultrademocracia defenderiam a ideia de que existe algum interesse público no estado das coisas no traseiro presidencial.

Mas esse, na opinião do dono do jornal, era o dever da imprensa. Oferecer a algumas pessoas a democrática ilusão ou o simulacro de terem sido consultadas.

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Tuta não era só goleador; era um craque da comunicação

FOTO-ANTONIO COSTA/Tribuna do Paraná

Naquele fim de tarde do dia 18 de abril de 2004 o vestiário da Baixada era o lugar mais desconfortável de Curitiba.

Todo vestiário da época era apertado, úmido, abafado, fedia a urina, Zig e creolina. Mas, aquele, naquele momento, tornara-se assustador – reverberavam pelas paredes de cerâmica e concreto os berros que vinham de fora, onde dois mil torcedores enfurecidos ameaçavam os jogadores do Coritiba, em particular o centro avante Tuta, autor de dois gols naquela 3 a 3 que dava o bicampeonato paranaense ao alviverde.

Do lado de fora e nos corredores de acesso estava a Polícia Militar de escudo, cassetete e pistolas de gás (que não precisou usar). Não foi fácil conter aquela multidão cega de ódio que tentava pegar o Tuta. Durante três horas, jogadores e diretores do Coritiba comemoraram o título com um olho na cerveja, outro na porta. Alguns dispensaram a comemoração a apenas oraram como cristãos nas catacumbas.

Só lá pelas 9 da noite foram liberados para o ônibus que os levaria ao Alto da Glória. E apenas então, baixada a adrenalina, avaliaram o risco que aquele vestiário representava.

A explosão de raiva começou após o segundo gol de Tuta, de cabeça, aos 31’ do segundo tempo, que selava o empate de 3 a 3 e dava o campeonato ao Coxa. O centro-avante, que tinha sido artilheiro rubro negro no campeonato de 1998, correu até a torcida do antigo clube e mandou aquele povo todo calar, com o dedo indicador na boca. A galera devolveu com palavrões, alguns tentaram escalar o alambrado.

“Eu estava mordido com a ingratidão deles”, explicou Tuta.

Na verdade, uma dupla ingratidão: tinha sido xingado o jogo inteiro e, pior, fora apagado da história do Atlético. Seu nome e biografia não constavam no site que registrava os jogos, os gols e homenageava os campeões de 1998. Para um veterano camisa 9 que vive de gols o esquecimento é pior do que a morte.

A mágoa de Tuta com os cartolas rubro negros foi explorada durante a preleção de Antônio Lopes. O técnico entendia a alma humana desde o tempo de delegado da Polícia Civil do Rio de Janeiro. “O que fizeram com Tuta podem fazer com um de vocês”. Convocou os jogadores a vingar Tuta, o craque esquecido, apagado e humilhado pelo Mario Celso Petralha no site oficial do clube.

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Após a vitória, os jogadores e o árbitro Marcos Tadeu da Silva Mafra (antigo jogador do Avai de Florianópolis) correram para o vestiário.

A volta olímpica ficou para outro dia.

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Era inacreditável o poder de comunicação no camisa 9 coritibano.

Na segunda-feira,todos jornais abriram a primeira página para a desafiadora foto de Tuta diante da torcida adversária e a manchete: “Silêncio na Baixada”. Analistas dividiam-se entre criticar a provocação, e considera-la parte do jogo. “A provocação, o sarro, o deboche são o combustível do futebol”. Todos reconheciam que Tuta foi hostilizado desde o primeiro minuto do primeiro jogo (2 a 1 para o Coritiba) e elogiavam o oportunismo do centro-avante (que vinha de campanhas vitoriosas no Flamengo e no Palmeiras). Alguns advertiam: isso vai terminar mal. Aquele clima de altíssima tensão que rodeava o clássico podia degenerar em violência incontrolável.

Era um bicampeonato merecido. O presidente Giovani Gionedis conseguiu reunir o melhor grupo de jogadores em duas décadas. Não era pouco, por exemplo, ter na zaga Reginaldo Nascimento, Miranda e Adriano.

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Nascimento, o “capitão” Nascimento, 338 jogos pelo Coxa, é um exemplo de liderança usado pela diretoria – primeiro do clube, agora da SAF – para coordenar as coisas entre o time de cima e as divisões de base.

Mas é também um pretexto para falar na fábrica de craques instalada pela família Matsubara em Cambará, no Norte do Paraná. Imagine, leitor, o surgimento no meio daquelas plantações de algodão, de uma Vila Olímpica modelo. Cinco campos de futebol com dimensões FIFA, ginásio bem equipado, piscinas regenerativas, Foi o primeiro a usar scout para identificar talentos em todo Brasil. Oferecia quase tudo que existe hoje – departamento médico e odontológico, nutricionista, fisioterapeuta, hotelaria, escola a cerca de 100 garotos peneirados em vários estados.

E possuía uma capacidade que poucos clubes hoje possuem – a de pensar no médio e no longo prazo. Outro dia, ouvi de novo uma entrevista do craque Alex no podcast Carneiro & Mafuz, em que ele define a decisão mais difícil dos executivos do futebol. “Você tem um garoto de 16 anos, com tudo para ser craque. E você pode optar em investir nele para compor um elenco que vai conquistar campeonatos e taças para o clube; ou você, diferentemente, trabalhar o garoto para se tornar um produto na prateleira e ser vendido com lucro dali a um ano. O Mateus Cunha, hoje no Manchester United, é um exemplo da segunda visão: veio para o Coritiba em 2014, morou três anos nos alojamentos do Estádio Couto Pereira, fez sucesso na Copa São Paulo e foi vendido para o Sion, da Suiça, por 700 mil reais. O United pagou por ele 74 milhões de euros.

Os donos do Matsubara tinham visão de longo prazo. Mantiveram o mesmo Diretor Esportivo Luis Carlos de Oliveira, o Bolão, durante 13 anos. E a mesma equipe de apoio. E produziram, além de Reginaldo Nascimento e Miranda, craques como Nilmar (Internacional), Carlos Alberto Dias (Botafogo, Vasco e Coritiba), Toninho Carlos (Santos dos anos 1980).

Pena que o Matsubara não era uma empresa esportiva. Desintegrou-se com a doença do algodão. As plantas eram destruídas por uma praga do besouro chamado Bicudo. O patriarca,  Sueo Matsubara teve que desistir do futebol. Os campos de treinamento abandonados viraram capinzais. Os edifício sem manutenção estão em ruinas. Só sobrou, em mau estado, o Estádio Regional Vicente de Carvalho, onde o Matsubara mandava seus jogos profissionais, construído pela comunidade de Cambará. O espaço recebe alguma manutenção da prefeitura e de antigos funcionários do clube para acolher jogos de equipes amadoras e eventos locais.,

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Miranda era o zagueiro alto e ágil, firme e frio, com técnica para dominar uma bola na área e em vez do chutão, livrar-se do adversário com um drible seco e avançar para o meio do campo encaminhando a transição. Depois do Coritiba, foi tricampeão pelo São Paulo e supercraque do Atlético de Madri.

Gosto muito da carreira de Adriano, zagueiro e ala moderno que começou no futsal (AABB), formou-se no Paraná Clube, veio para o Coritiba com 17 anos. Era admirado por Pep Guardiola, que foi busca-lo no Sevilha para viver seis anos de ouro no Barcelona. Saiu de lá com duas Ligas dos Campeões, dois Mundiais de Clubes e quatro títulos da La Liga.

Aquele Coritiba de 2004 tinha quatro operários no meio campo: Ataliba, Márcio Egídio, Capixaba e Luis Mário. No ataque, o craque Aristizabal, maior artilheiro do futebol colombiano e peça fundamental da Tríplice Coroa conquistada pelo Cruzeiro no ano anterior.

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Tuta não jogava sozinho.

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Ciclistas no MON

Edward Hopper, se viesse a Curitiba, acabaria no MON. Depois de um cafezinho, iria passear no gramadão dos fundos, povoado de cachorros e jovens. Como gostava de bicicletas, não é improvável que produzisse algo assim:

Intervenção da IA do Google sobre uma foto com iPhone 14. Original abaixo.
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