
Na areia não se acha uma mísera bituca.
Era uma moça loira e linda, quase uma Kate Moss, exibindo em pleno sol das 11 seu doce balanço a caminho do mar. O homem sério que buscava notícias no celular parou a leitura para contemplá-la, um garotão encheu o peito, várias moças nem tão loiras, nem tão lindas administraram uma invejazinha. Que não era inveja branca como se verá a seguir.
A moça venceu com graça dez metros de caminho balizado entre a vegetação da restinga e avaliou o mar de pequenas ondas. As maiores estavam longe, servindo os surfistas da ponta da praia.
Livrou-se da canga, da viseira e da bolsa de ráfia oversized e caminhou para a água. Um pulinho na primeira onda, outro na segunda, estava concluído o ritual. A moça na água, a atenção mudou para uma gaivota – ou seria uma fragata? – que passava e depois de volta aos celulares.
Poucos notaram o alarme do guarda-vidas, binóculo em punho do alto do observatório. Raros deram atenção à corrida de dois outros guarda-vidas com pés de pato e uma prancha. Só um gurizinho entendeu a situação e avisou a mãe que a moça estava se afogando. Olha o braço dela! O braço subiu à tona e sumiu puxado pela corrente. Olha os salva-vidas! Agora eram mais três que se atiravam no turbilhão.
Durou pouco mais do que dez minutos o salvamento. O socorrista chegou perto e estendeu um flutuador para a moça. Uma nova capotada e tudo certo – lá estavam os dois próximos ao banco de areia. Braço no ombro do guarda-vidas ela chega à areia. Chora. Não diz obrigado, não diz graças a Deus. Chora e se lamenta: “Perdi meu brinco!”
É mais um ouro perdido no mar – tributo a Iemanjá e a São Francisco de Assis, padroeiro dos pescadores e de turistas temerários.
A Praia das Tartarugas, município de Mata de São Joâo, região da Praia do Forte, 75 km ao norte de Salvador, é perigosa. Parece que as tartarugas marinhas sabiam disso há séculos e a elegeram para desova. Ao longo de 30 quilômetros de coqueirais a areia segue incólume, limpinha, um ano após o outro. Não se vê uma lata de cerveja, um saco plástico, uma mísera bituca – nada além de marcos assinalando ninhos de tartaruga.
Colaboradores do Projeto Tamar (tamar.org.br) há 45 anos monitoram a praia. À noite, com lanternas de luz vermelha (os quelônios fogem da luz brilhante), verificam os ninhos. A contagem deles a cada temporada reprodutiva indica se as populações estão aumentando ou diminuindo. (Boa notícia: estão aumentando). No breve período em que as tartaruguinhas deixam o ninho e vão para a água, os pesquisadores coletam dados biológicos. Com o avanço das pesquisas genéticas e de isótopos aprendem sobre a vida de uma tartaruga e a situação dos mares. E do nosso mundo.
Posso morder a língua, mas acredito que o Projeto Tamar, parceria entre a Fundação Tamar e o Instituto Chico Mendes, é um indício de que o Brasil tem jeito. Sobreviveu aos terríveis anos Bolsonaro, quando o Ministério do Meio Ambiente, sob o comando de Ricardo Salles (aquele do “passar a boiada”) extinguiu três bases avançadas de pesquisa, em Camaçari (BA), Parnamirim (RN) e Pirambu (SE). Superou investigações da Advocacia Geral da União sobre certificações de filantropia da Fundação.
O Tamar não apenas protegeu os animais; transformou a vida de comunidades litorâneas. Pescadores que antes utilizavam tartarugas como alimento passaram a protejê-las como funcionários do projeto, gerando renda através do ecoturismo. Mostrou que é possível a colaboração entre a sociedade e o Estado. (O Centro de Visitantes está em um terreno de 10 mil metros quadrados cedido pela Marinha). A Fundação Tamar é mantida com a venda dos produtos artesanais nas lojas, contribuições privadas e da Petrobrás.
Tomara que continue dando certo.
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