A Noviça Rebelde e a Dama de Preto – um passeio pelos Alpes austríacos

No ônibus turístico que parte do centro de Salzburgo há orientais, europeus do leste, senhoras do interior da Alemanha com tiaras de flores, meninas ensaiando o tema do filme.

Devo ser o décimo milionésimo turista que chega a Salzburgo e entra no ônibus de 60 lugares da Panorama para fazer The Original Sound of Music Tour.

Atualmente são dois passeios de quatro horas por dia, às 9:15 e 14h. Já foi mais. No ano passado a Panorama Tours levou 180 mil pessoas às locações de A Noviça Rebelde, filme que consagrou Julie Andrews em 1964 e premiou a insistência de Robert Wise, diretor e produtor que acreditou no projeto. Wise foi o diretor de West Side Story ( Amor Sublime Amor, Oscar de 1962), que renovou a linguagem dos musicais.

Nossa guia se apresenta, soletra o nome para quem quiser elogiar na saída (começava com A, seria Angelika, seria Agatha?), e conta que Julie Andrews quase não aceitou o papel de Maria von Trapp, a noviça que abandona o convento para cuidar dos sete filhos do Capitão von Trapp (Christopher Plummer).

Andrews vinha de um grande sucesso em Mary Poppins (que ganhou o Oscar do ano anterior) achou os papeis muito parecidos. Além disso estava grávida. Na fila para o papel apareciam Doris Day, Grace Kelly, Audrey Hepburn e até Angie Dickinson, aquela de Police Woman, voz perfeita. Mary Martin, dona do papel na Broadway, foi descartada por puro etarismo – muito velha.

Surge a Dama de Preto

O ônibus chega aos jardins do Hellbrunn Palace, onde fica o Gazebo. Não ficava. Foi reconstruído e transportado até ali para facilitar a vida dos turistas. É onde o capitão Trapp se declara a Maria.

Boa parte do ônibus sabe a música e até o passo de dança da história. Eu e os chineses tiramos fotografias, uma bem boazinha – veja acima – batizei A Dama de Preto nos Jardins de Hellbrunn. Vai para a parede do escritório.

Segue o tour, nossa guia tenta puxar outro tema do filme, mas o pessoal gosta mesmo é de Do-Re-Mi. Dizem que The Sound of Music não seria o sucesso que foi sem a colaboração dos novaiorquinos Richard Rodgers e Oscar Hammerstein. Autores da música e letra de grandes musicais como Carrousel (1945), Oklahoma!,  South Pacific (1949), O Rei e Eu (1951), Cinderela (1957) e a Noviça Rebelde. Rodgers nascido no Queens, Hammerstein na rua 124 Oeste, no Harlem. Não deixaram seu conforto para compor os temas. ,

  • Um negócio de 110 bilhões

Continuamos o passeio e penso que esses austríacos não inventaram, mas se colocaram em vantagem no turismo de cinema. Vou ao Google e descubro que o turismo cinematográfico movimenta uma grana respeitável no mercado global.

Um estudo da KPMG (uma das maiores firmas de auditoria do mundo, junto com Deloitte, EY e PwC) de 2024 projeta crescimento anual de 7,2% nos próximos três anos. O setor deve saltar de US$ 68,1 bilhões em 2022 para US$ 110,79 bilhões até 2028. Números.

Quem ganha mais são as grandes metrópoles. Nova York tem muitos roteiros. Um deles leva ao Museu de História Natural (Esqueceram de Mim), além da Tiffany & Co (Bonequinha de Luxo).

Em Londres o mais procurado vai aos estúdios da Warner Bros (Harry Potter). Minha neta já chegou com os ingressos online na mochila.

Em Paris a maioria começa com uma foto no Café de Flore, no Boulevard Saint Germain (Uma Noite em Paris).

Curitiba não ganha nada. Quem vai comprar um tour para conhecer as locações de um filme chamado “Estômago”? Pense nos sons.

A volta, com pressa

O passeio termina com uma volta pelas montanhas nevadas. Lindo. O ônibus vai para a estrada principal e acelera – um casal precisa pegar o trem para Munique. Há neve. Pequenos flocos batem no vidro e se derretem. Escurece. Anoto que deve ser dado crédito ao fotógrafo Ted McCord. Dono de três Oscars, fez a fotografia de O Tesouro de Sierra Madre, um filme que não envelhece. Merece ser assistido, assistido e assistido – primor de faroeste/triller psicológico com Humphrey Bogart, direção de John Houston.

Quanto mais a gente viaja, mais gosta de cinema.

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Salzburgo

Franz-Josef Strasse

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Não acredite em exemplos, principalmente em bons exemplos. Mas não custa prestar atenção neles

O Jaime Lerner viajava o mundo inteiro anotando as soluções que cidades encontravam para seus problemas. Raramente conseguiu transplantar os bons exemplos para Curitiba.

Por isso, é difícil que o atual prefeito consiga se convencer da urgência de arrumar as calçadas. Parece que uma força irresistível garante a sobrevivência de calçadas esburacadas, tortas ou adernadas.

Em todo caso, peço que vereadores, planejadores do IPPUC e a turma das associações de bairro observem a solução prática e de baixo custo adotada em Salzburgo. Aqui as ruas foram divididas em três partes – uma destinada a veículos motorizados, outra a bicicletas, a terceira a pedestres.

As três partes foram pavimentadas com o mesmo tipo de cimento asfáltico. Aplicado no mesmo dia, pelo mesmo empreiteiro, dentro do mesmo contrato de licitação.

O resultado é bonito. Tem a beleza das soluções simples. Como o drible da vaca de Pelé em Mazurkievicz na Copa de 70. Ou como a ideia de que lavando bem as mãos antes de fazer um parto os médicos reduziriam a mortalidade das mães por febre puerperal. Ou de que colocar sinaleiros nas esquinas melhoraria o trânsito.

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Uma festa diária no Olho

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Leocádio, grande herói coritibano

Um menino bom de bola, de Sergio Brandão e Dias Lopes, conta a história de Leocádio e principalmente do futebol arte que ele praticou.

Biografia de Leocádio Cônsul resgata a era de ouro do futebol brasileiro e a trajetória de um mestre do meio-campo. Escrito em parceria dos jornalistas Dias Lopes e Sérgio Brandão , o livro narra a história do ídolo que brilhou no Coritiba e em grandes clubes do Sul e Sudeste.
O futebol das décadas de 1960 e 1970 possuía uma mística própria, onde o talento era a regra e não a exceção. É mergulhando nessa atmosfera de craques que chega ao torcedor, no final de abril, a biografia de Leocádio Cônsul, um dos mais técnicos meio-campistas produzidos pelo futebol brasileiro naquele período.
A obra, utiliza a trajetória de Leocádio como parâmetro para falar de uma época, o futebol arte. O projeto nasce sob uma provocação reflexiva sobre o estado atual do esporte: do Interior Catarinense ao Estrelato no Coritiba
O livro percorre a rica jornada de Leocádio, que iniciou sua caminhada ainda menino em Mafra (SC). A biografia detalha até mesmo antes do seu primeiro registro profissional no Operário de Ponta Grossa e sua passagem por clubes que formavam o forte cenário do futebol regional e nacional da época, como Londrina, Ferroviária (SP), Apucarana e o lendário Metropol, hoje Criciúma.
O ponto alto da narrativa dedica-se ao período em que Leocádio defendeu as cores do Coritiba, clube onde permaneceu por mais tempo, consolidou seu nome e se tornou uma figura icônica para a torcida alviverde.
Resgate Histórico
Mais do que um registro de datas e gols, o livro é um documento sobre a essência do jogador brasileiro de outrora. Através das memórias de Leocádio, o leitor é transportado para um tempo onde a habilidade individual resolvia partidas e onde o “meio-campo” era o setor dos maestros.
A obra é um presente para o torcedor que deseja entender como se formavam os grandes times de um passado não tão distante e por que o nome de Leocádio Cônsul permanece gravado na memória de quem teve o privilégio de vê-lo jogar.


Lançamento: a partir das 16 hs, no dia 24/4/2026, na Biblioteca Biblioteca Pública do Paraná, rua Cândido Lopes, 133- Centro.

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Atenção para este prédio da rua Inácio Lustosa. É um monumento arquitetônico mal cuidado

A sede do antigo Instituto de Previdência do Paraná é um exemplo do descaso com que os governos tratam os prédios públicos.

O prédio foi projetado no final dos anos 60 pelos arquitetos Luiz Forte Netto, José Maris Gandolfi, Joel Ramalho Júnior e Vicente de Castro. Vencedor de concurso, é um marco do modernismo com concreto aparente.

Agora, operários procuram reparar inúmeros danos que o tempo e a falta de manutenção causaram ao prédio – um exemplar do estilo brutalista citado em livros de arquitetura mundo afora.

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Reflexões monolíticas

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Quaradouro

Quando todos dão a Cesar o que é de Cesar chama-se monopólio.

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Quando todos se locupletam chama-se isonomia.

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Quando todos têm que dividir o bife – e falta bife – chama-se austeridade.

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P.S. – A foto é de 2019. Agora botaram grade na marquise (para que serve uma marquise gradeada?), expulsaram o sem-teto que dormia embaixo e acabaram com o quaradouro.

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Toffoli não deve ir a uma pizzaria em noite de sábado, aconselha jornalista

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A colega Tays Oyama tirou o velho filósofo da prateleira e lascou no Globo:

“A possibilidade de frequentar espaços públicos sem constrangimentos sempre foi marcador da honra — conceito que Aristóteles trata como “bem externo”. Diferentemente da virtude — um “bem interno”, que alguém tem ou não tem —, a honra é um conceito atribuído, resultado da percepção social, fundamentada ou não, de que seu portador é dotado de excelência moral e intelectual”.

Está lá, no alto da primeira página de O Globo: “Como percepção pública, a desonra persegue Toffoli e Moraes”. Abaixo, o corolário:

“Se Toffoli resolver jantar num restaurante, arrisca ouvir adjetivos bem menos jurídicos que no passado”.

No tempo da ditadura, jamais o editor-chefe de O Globo teria liberado esse título. Todo jornalista sabia que falar mal de ministros, generais e outros figurões não era bom para a saúde. De repente tóc tóc tóc e o autor era levado a algum porão para confessar quem eram e onde moravam os outros comunistas.

Voltando aos filósofos, Hobbes concordava com Aristóteles. A honra é uma virtude extrínseca, outorgada pelos outros homens – ele viveu uma época em que só os homens eram senhores das outorgas. Quanto mais virtuoso o grupo, mais alto será o sarrafo que medirá sua honra.

A ideia está muito bem exposta no interrogatório de Dimitri Karamazov, que Os Irmãos Karamazov num sebo, em edição da José Olímpio, tradução de Rachel de Queiroz, introdução do Otto Maria Carpeaux, xilografias de Axl von Leskoschek:

“É um homem honrado que lhes está falando, absolutamente honrado, um homem – não esqueçam porque é importante – que cometeu um número incontável de vilanias, porém foi e continuará a ser sempre um ente intimamente honrado.(…) O que me atormentou pela vida inteira foi precisamente essa ânsia de lealdade, de nobreza; sofria por causa delas, procurava-as com uma lanterna, como a lanterna de Diógenas. E entretanto, durante a vida inteira, não cometi senão vilanias, como nós todos, meus senhores”.

“Como todos nós”.

Pirandelo apreendeu a ideia. Em “Seis Personagens em Busca de um Autor”, o Pai justifica o abandono da família e outras vilanias “pelos melhores motivos”.

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ONDE SE FALA DE NÁUFRAGOS, DO CISMA E DA BIOGÊNESE

Sabe a piada dos quatro náufragos alemães que chegaram a uma ilha deserta?

Primeiro fundaram uma associação para organizar as coisas. Elegeram o presidente e votaram o programa de trabalho. Construíram a cabana de dormir, um sistema de coleta de água de chuva, um puxadinho para o banheiro e foram tocando a vida. Ficaram felizes quando apareceu outra jangada com mais três náufragos, que foram incorporados à associação.

Não demorou para surgir a desavença. Os dissidentes fizeram outra associação na praia ao lado.

Anos depois, quando chegou um navio de resgate, havia na ilha três associações e um partido de oposição.

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Com exceção dos cisnes de Aristóteles, que o filósofo imaginava nascidos de folhas lançadas na água, nada é produto de geração espontânea. Louis Pasteur provou que a vida vem da vida. E que essa tal de abiogênese é uma ficção.

O Coritiba nasceu de uma costela da Sociedade Teuto-Brasileira de Curitiba, a Teuto Brasilianischer. A equipe de pesquisadores que desde 2025 enfrenta poeira e ácaros para analisar documentos históricos do clube, guardados durante décadas sob a arquibancada social do Estádio Couto Pereira, tem duas hipóteses de trabalho para explicar a separação.

A primeira é o choque geracional. Os sócios mais antigos do Teuto cultivavam com devoção os esportes olímpicos. Corrida, saltos, arremesso de peso e de disco eram com eles. Os mais jovens preferiam os esportes coletivos, principalmente o futebol.

Outra suposição é a disputa entre as famílias Strobel e Hauer pelo comando da sociedade. O vice-presidente da Associação Coritiba Foot Ball Club, Luis Betenheuser Jr, que, juntamente com o grupo Helênicos, conduz a pesquisa, considera essa possibilidade mais viável. Todo dia descobre novas evidências nas atas escritas em alemão com aquele visual uniforme e agradável dos melhores calígrafos, em livros de contabilidade que mais parecem tabelas de Windows com linhas e colunas perfeitas, recibos, fotos e cartas que resistiram à umidade e aos cupins.

A importância do material agora redescoberto é tão grande que justificou um pedido de tombamento do conjunto documental ao Conselho Municipal do Patrimônio Cultural de Curitiba (CMPC). Todo dia chegam novos documentos – cartas, fotografias, registros públicos – guardados no porão de casas antigas pelas famílias dos fundadores.   Aos poucos vai-se jogando luz sobre episódios da vida do clube e da capital paranaense.

Porque o Coritiba é Curitiba.

Explicando melhor. O nascimento do Coritiba praticamente coincide com o início do século curto, (1914-1991) assim definido pelo historiador Eric Hobsbawm, que começou com a eclosão da 1a. Guerra Mundial e terminou com a queda do Muro de Berlin. O encerramento do século curto ocorre pouco depois de o Coritiba se tornar o primeiro clube paranaense a conquistar um Campeonato Brasileiro de Futebol – feito que ultrapassou os portões do Estádio do Maracanã e levou o futebol paranaense a um novo patamar. Que era também o novo status econômico do Paraná. O estado liberta-se do Complexo de 5ª Comarca de São Paulo. Se antes vivia da monocultura da erva mate, e depois do café, agora exibe uma economia agroindustrial forte e complexa.

Os 60 mil habitantes da cidade de 1912 agora, no final do século curto de Hobsbawn, são três milhões – o maior boom demográfico da história do país. Curitiba enfrentou a questão com inteligência. Com ajuda de Jorge Wilheim, um especialista em planejamento urbano, votou um Plano Diretor. Estabeleceu um coeficiente máximo de potencial construtivo, criou um direito de construir oneroso, trouxe os recursos para um fundo de interesse público que financiou a construção de casas populares, praças, parques e lagoas retentoras da chuva. A Universidade do Paraná, nascida em 1912, agora liderava a quinta maior constelação de universidades do Brasil. A chegada de indústrias em Curitiba e RMC surpreendia os analistas. De consumidora de produtos culturais, passou a exportar maravilhas como o Grande Circo Místico (quem não lembra das músicas de Chico Buarque de Holanda e Edu Lobo?), criado pelo Ballet Teatro Guaíra no governo de José Richa e aplaudido por plateias do Brasil e da Europa. De tudo isso nasceu Museu Oscar Niemeyer (MON), citado em rankings internacionais como o maior museu de arte da América Latina.

E tudo – a indústria da bola, a indústria do automóvel, a indústria da inteligência – faz parte do mesmo processo contínuo de mudanças que chamamos de desenvolvimento.

Dito isso, deve-se ver com outros olhos a reunião da diretoria do Teuto, realizada em abril de 1909, no Alto do São Francisco, onde ficaram claras as divergências sobre o futuro da associação. Não era só divergência. Era a biogênese em andamento. Um grupo onde predominavam membros da família Strobel não queria gastar dinheiro com futebol. Outro, onde sobressaia a família Hauer, pensava o contrário. Não havia sentido em ignorar que aquela era uma sociedade dedicada ao esporte e que nenhum esporte era tão importante como o jogo da bola que chegara com os irmãos Rebouças e os engenheiros ingleses da Estrada Curitiba-Paranaguá.

Naquele dia a discussão foi longe demais. Ofendido, Valdemar Hauer abandonou a reunião e passou a pregar uma ruptura radical, com a fundação de uma nova sociedade esportiva, provisoriamente chamada de Coritibano Foot Ball Club. Prova de sua convicção é que em nova reunião do Teuto, realizada em dezembro de 1909, nenhum dos Hauer estava presente. Como na anedota, tinham ido montar seu clube na praia ao lado.

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(Trecho do livro COXA – Desde que a Bola é Bola, em elaboração)

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Momentos de decisão

(Mensagem enviada originalmente aos participantes do Café da Semana)

Que loucura, confrades cafezeiros! O presidente Trump acaba de dizer ao primeiro ministro da Noruega, Jonas Gahr Støre, que não se sente mais obrigado a pensar somente em paz depois que não recebeu o Prêmio. E repetiu a exigência de controle da Groenlândia.

A repórter Mallory Moench, no site da BBS, conta os detalhes da reclamação/intimação observando que Trump aparentemente não entende que o governo da Noruega é uma coisa e o Comitê do Prêmio Nobel, outra.

Pode ser o temido colapso psíquico.

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