Em setembro de 2015 Curitiba aprovou lei proibindo a circulação de veículos de tração animal.
A mesma lei prometeu auxílio para as famílias de catadores (eram 150 na época) que dependiam desses veículos para seu sustento.
O auxílio parece que não veio.
Hoje os veículos são de tração humana.
Como no tempo da escravidão.
Não há na Câmara Municipal projeto proibindo a circulação de veículos de tração humana, mas nenhum partidário do higienismo deve ficar preocupado.
Li no site da Prefeitura declaração do Superintendente Garret confirmando o “compromisso das instituições com a construção de políticas públicas mais inclusivas e com o fortalecimento de ações que promovam uma mobilidade urbana mais segura, equitativa e acessível”.
O senador Lindsay Grahan era considerado o melhor amigo de Trump, se é que esse cargo existe.
Morreu sábado de dissecção aortica. Instantaneamente. Fui perguntar o que é isso. No site do doutor Drauzio Varela uma explicação: é o rompimento da parte externa da aorta, a artéria mais importante do corpo humano.
O problema é mais incidente em homens a partir dos 60 anos. Arteriosclerose (endurecimento das artérias) e hipertensão são fatores de risco importantes e estão presentes em 75% dos casos.
Não perguntei mais nada. Fui completar os 7.000 passos no Bosque do Papa.
Os jogadores não reclamam publicamente do calor e da umidade de Miami. Bellingham reclama.
O técnico da Inglaterra é Thomas Tuchel, um alemão durão.
Terminou o jogo com a Noruega, vitória de 2 a 1 dos ingleses, ele meteu a boca na equipe. Disse que não gostou da moleza em campo, da falta de velocidade e dos erros cometidos.
Normalmente os jogadores ouvem calados essas reclamações. Mas Bellingham, o craque autor dos dois gols, respondeu de bate-pronto.
“Talvez ele não saiba o que é jogar contra o Haaland e o Odegaard com esse calor e umidade”
Uma alfinetada na modesta carreira de Tuchel como jogador.
A discussão sobre o jogo Inglaterra versus Noruega não deve focar a bola; deve jogar um poderoso spotlight no termômetro e no higrômetro.
O calor mata. O calor com umidade alta mata muito mais.
Quem já andou nas ruas de Cuiabá em dia de calor conhece essa sensação: calor e umidade. O corpo quer suar e não consegue – a gente fica cada vez mais quente por dentro.
Aquele estádio de Miami é pior do que a rua de Cuiabá porque é todo fechado, o ar não circula, e não possui um sistema de refrigeração como o de Dallas, por exemplo.
Não li uma linha sobre o alarmante número de vítimas do calor entre os torcedores.
Horas antes, apareceu no site da Exame: “Noruega x Inglaterra pode ser cancelado devido a calor extremo nos EUA · Previsão indica sensação térmica de até 44°C no horário da partida”.
Depois moita.
Não é bom falar no assunto, assim como não era bom reclamar ao imperador romano do perigo de vida que os gladiadores corriam ao entrar no Coliseu.
Nem a Globo, nem a ESPN, muito menos a Cazé TV, que comemorou os 21 milhões de aparelhos ligados na hora do jogo que transmitiu com exclusividade e os dois bilhões faturados na competição.
O título é da Marina Hyde no Guardian. Na verdade, ela falou de “malandragem mal sucedida” mas acho que “malandro mal sucedido” pega melhor.
A palavra que ela usa é chicanery, que dá chicana em português. Malandragem jurídica para atrasar ou anular processos judiciais.
Ela conta que a torcida aplaudiu de pé a derrota dos EUA. E comenta: a última vez que tantas pessoas aplaudiram a Bélgica foi na 1ª Guerra Mundial, em 1914, quando a resistência belga conteve os alemães que acabavam de atravessar o rio Meuse.
Trump é um chicaneiro. Está sendo gozado na internet porque pediu a anulação do cartão vermelho dado no jogo anterior ao craque B….., por falta violenta.
Acha que pode tudo, pobre coitado, mas não consegue influir em um reles joguinho de oitavas de final. (Também não consegue derrubar o regime dos aiatolás, nem obrigar aquele gordinho da Coreia do Norte a parar de fabricar mísseis atômicos, mas essa é outra história.)
O importante é a atitude de B…, que aceitou o benefício da Fifa e entrou em campo. Tentou fazer gol, os belgas não deixaram. Se B… tivesse caráter, fosse um daqueles craques éticos do Coelho Neto, não entrava em campo porque o futebol é um jogo de gente decente.
Coelho Neto (1864-1934) imortal torcedor do Fluminense via o futebol como instrumento cívico de regeneração social e moral. A ética esportiva, garantia, vai lapidar o caráter do jovem brasileiro.
Passamos agora a outro momento da Copa, aqueles minutos finais de Brasil e Noruega, quando os onze jogadores trocaram passes mecanicamente diante da defesa da Noruega, que está longe de ser a melhor do mundo. Parecia que estavam ganhando.
Entendi logo que estava diante de uma disanalogia – nossos onze continuaram a tocar a bola como os oito integrantes da orquestra do Titanic continuaram a tocar seus instrumentos enquanto o transatlântico afundava.
Eis a disanalogia que nos envergonha: os músicos esperavam, com suas valsas e polcas, acalmar os passageiros em pânico e permitir que o maior número fosse salvo. Os boleiros esperavam que o juiz apitasse o fim do jogo para correr ao vestiário e dali a seus aviões de volta à Europa, aos Lamborghinis, às ruas seguras.
Nenhum entrou no avião da volta ao Brasil. Correção: só Danilo, que joga no Flamengo, voltou no avião da CBF. Nem Ancelotti estava a bordo.
Desconfio que o capo da seleção tem medo dos dirigentes. E se alguém envenenar seu uísque para não ter que cumprir mais quatro anos do contrato de cinco milhões por mês?
São tão bonitos que dá vontade de levar para casa. Agora você pode, desde que preencha os requisitos de adoção da Receita Federal.
Um cão de faro é um 007 de quatro patas e um nariz privilegiado que enfrenta os maiores perigos na luta contra narcotraficantes.
Grande parte de seu trabalho, porém, é cheirar malas no aeroporto.
Dizem que dá um rosnado piedoso ao constatar a quantidade de roupa suja, chulezenta, que as pessoas carregam na volta da viagem.
Possui 300 milhões de receptores olfativos; os humanos têm míseros 8 milhões).
Pode ser pastor alemão, pastor belga de Malinois (o da foto é um legítimo Malinois), labrador retriever, bloodhound ou beagle.
A Secretaria da Receita Federal acaba de criar o Sistema de Aposentadoria Assistida de Cães de Faro. Os animais que trabalharam na instituição têm direito a uma vida de qualidade após a aposentadoria.
Isso significa assistência veterinária, alimentação, fornecimento de medicamentos e tudo que for necessário ao bem-estar do cão.
Está na Portaria RFB Nº 700, de 26 de junho de 2026, que dispõe sobre o Sistema de Aposentadoria Assistida de Cães de Faro da Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil.
Leia a Portaria e descobra como a gente pode adotar um cão de faro.
Não sei se todos notaram, mas logo após o gol de empate de Casemiro Vini Jr recebu a bola na esquerda e partiu para cima do zagueiro Tomiyasu, que não é um cabeça-de-bagre qualquer. É craque do Arsenal, custou 23 milhoes de euros e nem por isso deixou de tomar uma acintosa caneta da Vini, que invadiu a grande área, tirou os zagueiros Taniguchi (nenhum parentesco) e Watanabe com cortes rápidos, descobriu um espaço que só os supercraques enxergam para finalizar de biquinho na saída do goleiro Zion Suzuki.
Era gol, gol de placa, pintura de gol, capolavoro, não fosse a defesa milagrosa de Zion, que já está na lista de contratações dos maiores clubes do mundo para a próxima temporada.
Suzuki, 1m90, primeiro goleiro negro a defender o Japão, desafiou as leis da física – voou para o canto e felino desviou a bola de ponta de dedo.
Assim como o gol que Pelé não fez em Mazurkievicz, no Brasil X Uruguai de Copa de 1970, o gol de Vini Jr que Suzuki evitou vai para a história das Copas e será lembrado daqui a 50 anos.
Claro que, no ano de 2076, o futebol será diferente, os jogadores correrão 25 quilômetros por partida de quatro quartos recebendo instruções pelos chips colocados na parte anterior do cérebro. (Na parte da frente haverá telas para exibir comerciais dos patrocinadores).
Mas o não-gol de Vini Jr, solista da seleção brasileira de 2026, será lembrado pelos frequentadores dos bares, entre um coquetel molecular e outro, ao lado do não-gol de Pelé e da Mano de Dios de Maradona, como um dos grandes lances do futebol-arte.
O por-do-sol em Curitiba indica uma certa poluição. Mas ainda poderemos respirar esse ar por muitas décadas, ao contrário, por exemplo, de Los Angeles. São os benefícios do delay.
Vivo em Curitiba e não nos EUA ou Europa, e sou feliz.
Aqui tudo chega atrasado.
A própria secretaria de turismo está atrasada em colocar no Aeroporto Internacional Afonso Pena esse anúncio: Curitiba, a Capital Mundial do Delay.
A luz elétrica chegou em Nova York, Londres e Paris em 1882. Aqui, dez anos depois. Quer dizer: tivemos mais dez anos para serenatas ao luar e a poesia do lampião de gás.
A cloração de água em larga escala começou na virada do século passado em Nova York e na Europa. Aqui, a primeira estação de água tratada, a ETA Tarumã, é de 1945.
O primeiro automóvel rodou em Paris em 1887. Aqui, só em 1903 – um carro francês, trazido pelo Francisco Fido Fontana.
O neoliberalismo é de 1970/80 (Reagan, Thatcher). Aqui, em 1996, parceria Fernando Henrique/Jaime Lerner.
Frank Sinatra estourou nos EUA em 1942 com show no Paramount Theatre, em Nova York. Ao Brasil, só chegou em 1980 quando cantou para 150 mil pessoas no Maracanã.
Aqui, nada.
O primeiro metrô foi inaugurado em Londres em 1863. Curitiba desfruta de um magnífico delay de 163 anos. Depois vieram todos os outros subterrâneos na Europa, na América do Norte, na Africa – até em Pyongyang, Coreia do Norte, onde os comunistas construíram linhas 110 metros abaixo da rua. Isso enseja outro anúncio que a secretaria de turismo deve colocar no Aeroporto: “Você chegou a Curitiba, única capital do mundo que não tem metrô”.
O TGV, Trem de Alta Velocidade, roda na Europa desde 1981. Perguntei à Inteligência quando vai chegar a Curitiba. Ela respondeu com a sinceridade dos algorítmos: “O transporte aéreo e rodoviário continuam sendo as únicas opções disponíveis por tempo indeterminado”.
Então, as aéreas metem a faca e o jeito é viajar de ônibus. A Cometa com muito senso de humor garante que ninguém vai sentir a diferença: “Nosso ônibus é um verdadeiro avião”, diz o anúncio.
Sou feliz porque, graças ao delay, aqui não tem superaquecimento, seca, Trump, heatstroke, ingresso de futebol a dois mil dólares, pausa no teatro para os atores se hidratarem. E nunca ninguém foi empurrado para morrer nos trilhos do subway como vive acontecendo em Nova York. Não há polícia de imigração, os venezuelanos são bem-vindos, os cubanos são bem-vindos, as portas estão abertas.
Recentemente descobri outro motivo para ser feliz. É que aqui, apenas aqui, vive-se em permanente afternessless, um barato absolutamente Leminski, leve, alternativo – uma Era Dourada que o vivente não precisa viver para desfrutar.
A fruição do delay é privilégio de curitibano que curte gol pela CazéTV.
Quando não tem Copa, a gente vai que vai para a praça Eufrásio Correia desfrutar o maior delay do mundo – esperar a chegada do TGV.
Os guarda-sóis foram proibidos numa praia da Sardenha – aquela ilha italiana com 2.000 km de praias – para todas as pessoas com idades compreendidas entre os 10 e os 65 anos. É a mais recente ideia de jerico para defender o meio ambiente na Itália.
A praia de Punta Molentis é pública, mas para pisar na areia temsó que pagar 10 euros de ingresso.
Ao saber da nova regra, uma turista francesa se indignou:
-Agora para instalar um guarda-sol vou ter que alugar uma criança?