Nesta altura dos acontecimentos políticos, quando os jornais começam a especular quem ocupará os cargos mais importantes no futuro governo, ocorre-me uma fábula, que vem muito a propósito: houve, certa ocasião, uma eleição para ver quem seria o rei dos animais. Concorriam ao cargo o tigre e o leão, dois candidatos fortes que dividiam o eleitorado.
O ratinho ficou do lado do leão. Devia-lhe alguns favores e confiava mais nele que no tigre, bicho astuto, matreiro, de quem não se sabia, com certeza, o que esperar. Por isso esmerou-se nas suas tarefas. Contactou com todos os bichos. Formou dlretórios e obteve até um voto que parecia impossível, o do bicho preguiça que no dia da eleição compareceu para votar, para espanto de todos.
O leão ganhou por larga margem de votos e, um dia antes da posse, chamou o ratinho:
-O que é que você quer ser no meu governo?”
-Nada. Desejo apenas ter entrada livre no palácio e falar com vossa majestade na hora que quiser.
O leão concordou e foi trabalhar de monarca. Na primeira audiência pública o ratinho entrou no salão, aproximou-se do trono e sussurrou no ouvido real:
-Vossa Majestade está precisando de alguma coisa?
O leão agradeceu.
-Nada, obrigado.
O ratinho foi embora. No dia seguinte, só se falava uma coisa na floresta: “O ratinho é que está com a força. 0 rei nada faz sem consultá-lo”.
Moral: as vezes é melhor ser amigo do rei do que ter as atribulações dos altos cargos.
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(Fábula contada pelo Nireu Teixeira no velho Correio de Notícias)
Senti um choquinho no joelho mas fui em frente na tentativa de completar 7 mil passos, número cabalístico que afasta você do infarto.
Adiante, outro choquinho, agora acompanhado de um falseio. Vou cair. Não cai, com cuidado completei o percurso.
O Google diz que choquinho é encrenca porque o joelho é complicado. Parece que o Criador, na ânsia de evitar tombos, caprichou demais. Construiu o joelho com um emaranhado de ossos, cartilagens, ligamentos (cruzados e laterais), tendões, músculos – tudo banhado por um tal de líquido sinovial.
Para consertar joelho só médico muito bom. E muito raro. E muito caro.
Não pise errado para não se endividar.
Mas não pisar errado como? As calçadas de Curitiba estão entre as piores do mundo. (Parece que em segundo lugar, perdemos para Bangladesh). Há buracos, pedras saltadas, o petit pavê é uma fábrica de tendinites, sem falar na LCA, a Lesão do Ligamento Cruzado.
No governo Mauricio Fruet a prefeitura tinha um programa chamado Vamos Caminhar Melhor. Pensava nos velhinhos que arrastam o sapato e nas senhoras com salto alto. “Vamos Caminhar Melhor” recuperou em 1984 mais de 12 mil metros quadrados de calçadas na área central da cidade.
Os prefeitos que vieram depois nada fizeram pelas calçadas de Curitiba. Quando você reclama dizem que calçada, por lei, é responsabilidade do proprietário.
Quer ver mudaram a lei? Proponho uma campanha: Prefeito Sem Carro. Pra ter mais resultado, tira-se o carro do Secretário de Urbanismo, do Secretário de Obras, do Secretário da Saúde, do presidente do IPPUC, que costuma desenhar as calçadas.
Se o prefeito e sua turma forem obrigados a andar a pé pela cidade – sugiro começar pela Travessa José do Patrocínio, aquela das raizes obcenas e buracos pornográficos – vamos caminhar melhor.
Enzo Maresca, o técnico que ganhou a Copa Mundial de Clubes de 2025 para o Chelsea, acaba de ser demitido. Motivo alegado: venceu apenas um dos últimos sete jogos. Motivo verdadeiro: lealmente informou à diretoria do clube uma sondagem do Manchester City para substituir Pep Guardiola no fim do ano.
-É malandragem dele – berrou um diretor do Chelsea. –Está querendo aumento!
Parece que não. Parece que Maresca estava simplesmente sendo honesto com o clube, jogando limpo. Uma atitude tão estranha num mundo de ardis, espertezas e malandragens que ele perdeu o emprego.
O novo técnico já sabe: para sobreviver terá que ser maquiavélico. Fingir admiração pelo diretor que se acha um estrategista. Escalar aquele cabeça de bagre comprado a peso de ouro. Entender que o futebol é torto como as pernas do Garrincha. Em resumo: não resistir.
Ou resistir.
Esquecer os 800 mil dólares por mês e botar a boca no trombone.
Por isso, proponho que o ano de 2026 seja dedicado à defesa dos honestos.
Eles estão em número cada vez menor e isso é grave.
Mesmo em minoria, são essenciais para o equilíbrio do ecossistema político-esportivo-econômico do planeta.
Resistir como o João Saldanha, técnico da seleção no auge da ditadura. Quando o general Médici manifestou sua preferência por Dadá Maravilha para centro avante. Ele reagiu:
-O general não deve escalar a seleção, assim como eu não devo escalar o ministério.
Foi demitido e João Havelange correu a Brasília prestar contas ao coronel Jarbas Passarinho, ministro da Educação. No dia seguinte, perguntaram ao Saldanha porque ele saiu.
-Por que eu saí é fácil de entender. Difícil é explicar porque eu entrei.
Neste Natal quente, imagine os plantonistas da GloboNews que nunca desliga tomando cafezinho com coca cola para enfrentar seis horas de tédio. As fontes estão na praia com o celular desligado, o Requião candidato não rende uma chamada, o movimento de Nova York foi maior do que o ano passado, e dai? – e teve a mensagem de Leão XIV. “Negar ajuda aos pobres é rejeitar Deus”. Traduzindo: deem esmolas para eles. Muito antiquado esse papa americano. O papa Francisco pedia igualdade
Felizmente a BBC deu de presente ao público mais um pedaço do escândalo Epstein: o e-mail que O Homem Invisível enviou a Gislaine Maxwell. Sabe a Gislaine? Era namorada e organizadora de eventos daquele empresário corruptor de menores que deu oito caronas a Trump em seu jatinho.
O Duque de York é (era, teve que abdicar do título) o principe Andrew, terceiro filho da Rainha Elizabeth. Estava obrigado em Balmoral, o castelo de verão da família. Às 11h de 16 de agosto, não aguentava mais de calor e tédio, porque o agosto deles é pior do que o nosso dezembro – aqui tem praia. Na mente aristocrática desfilavam recordações de verões mais divertidos e ele, provavelmente turbinado por alguns gin tônica (requer confirmação), escreveu o email. Primeiro relatou a pasmaceira familiar e no segundo parágrafo foi ao assunto.
“How is L.A.? Have you found me some new inappropiate friends? Estou livre de 25 de agosto a 2 de setembro.”
Um cara sutil, nosso príncipe. Se fosse um deputado brasileiro querendo detonar parte da verba desviada de algum hospital do Maranhão teria escrachado: “Me arranjou uma nova gostozinha?” Ugly. O principe é bem educado. Polidamente pediu por uma nova amizade inapropriada. Nicely done, teria dito tia Margareth, a escandalosa, também de gin tônica em punho.
1985. Comecei a desconfiar logo de manhã. No elevador, um conhecido abriu seu melhor sorriso e disse:
-Grande vitória a nossa, heim?
Concordei distraído, já estávamos no térreo. Algumas quadras adiante lembrei: o conhecido era Atlético. Eles, então, tentavam se apropriar da nossa conquista.
Em outros locais e situações confirmei a suspeita. Atleticanos e colorados, pinheirenses e londrinenses almejavam ser campeões do Brasil à custa da gente.
Este é um alerta. Fique atento, leitor Coxa. Não deixe que avancem no que é nosso.
Pois fomos nós, exclusivamente nós, que batalhamos, desde que a bola é bola, os tostões para entrar no estádio e ver a inesquecível linha Baby, Merlin, Neno, Camarão e Altevir. E o Tonico, o Cartola, o Fedato – impávido Fedato! – foram objeto de admiração ritual de nossos olhos infantis.
Choramos um rio de lágrimas sentidas nas derrotas para o inimigo. Principalmente nas derrotas arrancadas à custa de malícia e colocadas a serviço do deboche – como quando o ponta esquerda Cireno levou o goleiro Belo a loucura ao arrancar o gorrinho que lhe escondia a calva.
É verdade que demos o troco, anos depois, quando Miltinho, pior que um saci, driblou, driblou, driblou, até que ninguém mais ousou chegar perto para ser driblado. E então – glória suprema! – sentou sobre a bola e devolveu o deboche com juros e correção monetária.
Ou então quando o Ivo Cavalo de Pau beliscou as partes pudendas do goleiro deles que de tão indignado esqueceu de segurar a bola. Por mais que se elogie a arte, o futebol é isso: chalaça, provocação, sarcasmos e remoques.
Aliados
Agora aparece o conhecido do elevador, melífluo e envolvente, querendo acabar com o encanto. Fora com ele. A obrigação de cada Coxa é manter o desafeto. Senão, a quem fazer escárneo?
Por sinal, o inimigo concorda com isso. Não posso imaginar o Osiris de Britto, do alto de sua dignidade, tentando pegar carona no bonde da glória coritibana. Pelo contrário, ele está fechado em casa tentando inventar uma frase para diminuir o feito. E competência não lhe falta. Afinal, é o Osíris o autor de inesquecível sentença proferida quando lhe apontaram o Coritiba Foot Ball Club como modelo de organização.
-Se eu gostasse de organização, torcia para o time da Volkswagen!
Outro que se preocupa em preservar os laços de inimizade que ligam os principais clubes do Paraná é o Jairo de Araujo Regis, agora morando no plácido Espírito Santo, antes responsável por brilhantes manchetes coxas na revista Placar. Jairo dirigiu a revista com brilho e obstinação alviverdes. Pelo DDD, minutos após a vitória no Maracanã, ele reiterou sua posição histórica.
-Se um dia o Atlético disputar a final com a seleção dos cachorros você vai me encontrar latindo no meio da cachorrada.
Não se deixe iludir, leitor Coxa, querem um pouco de sombra à beira do monumento de nossas conquistas. Ria na cara deles, zombe, chalaceie, escarneça. Só assim eles irão para longe preparar a revanche.
Não sei que idiota disse que todo mundo tem direito de torcer para o Flamengo no meio da arquibancada do Vasco. Suspeito que não fosse um idiota qualquer mas um assassino terrível atraindo a vítima para o local do esquartejamento.
Futebol é sangue e paixão – o resto é demagogia. Nesta hora histórica há que ter visão crítica e resistir às tentações. Belo bem do futebol paranaense precisamos preservar os nossos inimigos.
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(Publicado no Correio de Notícias, em 02/08/1985, agora republicado no Blog do Coxa pelo historiador Luiz Betenheuser Júnior. Valente historiador que neste momento enfrenta um exército de ácaros nos arquivos do Coxa para resgatar imagens e informações velhas de um século. Há um tesouro de documentos nas caixas e caixas que dormiam sob a arquibancada social do Couto. Essa pesquisa nas fontes primárias é árdua mas recompensadora. Numa visita rápida vi relatórios que vão ajudar a reescrever a história de Curitiba – da Curitiba de 60 mil habitantes que recebia o primeiro bonde elétrico (Linha Batel-Alto da Glória) e só comia churrasco graças ao bonde de carga que vinha do Matadouro do Guabirotuba.)
O cara que desenrola esse emaranhado ainda não nasceu.
Quem compra apartamento em andar alto imagina que fugiu do barulho, da poluição e dos problemas da cidade – em suma, que chegou ao lado bom da vida.
Há dois tipos de curitibanos que acreditam no Mito do Andar Alto.
1 – Os românticos. Converteram-se sob a influência do Paulinho da Viola. Visto aqui do alto mais parece um céu no chão. Ou admiram o MC Tikão. Graças a Deus, missão cumprida! Mais um guerreiro vida loka que venceu na vida!
2 – Os pragmáticos. Ouviram a voz vibrante de corretores que apontam a vista privilegiada, o sol de todos os lados, a valorização progressiva.
Compartilham uma ilusão: o condomínio vertical confere status. Como o Castelo da Montanha. Lá em cima o Rei, no meio os cortesãos, em baixo a turma da beira do rio rezando para a enchente não chegar onde chegou no ano passado.
Só quando toca o telefone o Homem do Alto conhece a verdade: os problemas subiram com ele. O rapaz da empresa que fornece banda larga está avisando que o duto não suporta mais um cabo.
Desce para olhar e descobre com horror o ouriço de fios em torno do poste, o duto entupido de cabos anacrônicos, das antenas para os canais de TV locais, das parabólicas, da Banda Ku, da GVT, da Brasil Telecom, da Neo e de outras que ninguém lembra mais o nome. Não há lei que obrigue a prestadora de serviço a retirar o cabo inativo pela simples razão que a prestadora não presta mais – faliu.
Introduzir um cabo novo no duto entupido é semelhante ao mito de Sísifo, aquele condenado a levar a pedra ao alto da montanha. As interdições são tantas que o único certo é o rapaz do cabo novo. Só pagando um extra para um baixinho ex-funcionário da Oi que tudo conhece sobre as entranhas do veterano arranha-ceu.
Quem paga? O morador? O condomínio? A prefeitura, responsável pela fiozera nos postes?
Agora, para quem chega ao alto do prédio inaugurado há 20 anos, assistir à Premier League no telão de 100 polegadas virou sonho de Sísifo.
A menos que contrate o baixinho ex-Oi.
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P.S. – O texto acima recebeu um ponto final antes da aprovação pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), na terça-feira, 2 de dezembro, da proposta que define as regras para o compartilhamento de postes entre empresas elétricas e de telefonia. Uma piada. Há sete anos burocratas discutiam as novas regras.
Antes de iniciarem a comercialização dos espaços nos postes, as distribuidoras precisarão elaborar um plano de regularização dos postes. É a missão impossível de acabar com a fiozeira dos cabos ociosos, estruturas superlotadas ou clandestinas.
Futebol tem lógica. A lógica da cautela. Do tedioso método de não deixar o outro fazer gol na esperança que surja uma oportunidade de fazermos o nosso. Combina com o Coritiba, o clube que melhor incorpora a alma curitibana.
Pois Curitiba sempre foi isso: um tédio. Uma cidade de comedores de vina que, por décadas, vêm assistindo à mesma chuva cair sobre as mesmas calçadas malcuidadas. Gente paciente que começou a jogar futebol quando um alemão chamado Fritz Essenfelder – na verdade, um alemão nascido na Argentina – trouxe a primeira bola e ensinou à turma os rudimentos do sistema 2-3-5.
E pacientemente juntou dinheiro para erguer um estádio. Hoje é um estádio bonito, que contem partes dos estádios anteriores. Distinguir essas partes, de diferentes épocas, traz a emoção de quem mostra os anéis de crescimento de uma imbuia de 116 anos. Como é uma árvore bem cuidada, ela vai viver mais 300 ou 400.
Todo esse passeio pela botânica explica o prudente zero a zero de ontem.
Não era preciso ganhar – bastava não perder para provar que estes dois anos na Série B foram apenas um tombo, não o início de um escorregão prolongado.
Alçado de volta pela oitava vez à Série A o que esperar desse clube de comedores de vina? A transição tem lógica, a mesma da classificação – antes de sair contratando é preciso evitar que outros contratem nossas joias.
Temos duas – Pedro Morisco e Lucas Ronier. Dois meninos que podem ser atraídos por salários quatro ou cinco vezes maiores do que os atuais, pela promessa da glória na Premier League e a convocação pelo Ancelotti. Como convencê-los a ficar mais um ano ou dois? Difícil. Mas eu começaria tentando o pai, a mãe, a esposa – gente com um estoque maior de prudência.
Há uma terceira joia, o Mozart, um dos nossos, legítimo comedor de vina. Ele deve estar preocupado em continuar sua carreira em vez de ser vaiado até quando entrega o que promete. Como segurar o Mozart, um técnico que tem a capacidade de lidar com imprevistos como foi ontem a ausência de Wallisson e Josué? Impossível – mas pode ser que ele seja maluco bastante para querer ficar.
A lógica da transição pede sabedoria ao planejar a meta para 2026. Formar um time invencível? Nem pense nisso. Ganhar o Brasileirão? O Brasileirão é a competição mais difícil do mundo. Exige um supertime no campo e outro no banco. A Copa Brasil? Olha, se é para sonhar, sonhe com a Copa Brasil, um mata-mata que depende de time para chegar às oitavas, mas às vezes se resolve com um sorteio favorável.
A Copel anunciou a venda de 104.927.939 ações preferenciais para a Invesco. Pelo valor do dia, a operação representa a entrada de 1,5 bilhão de reais no caixa da empresa.
Isso significa a alienação de cerca de 6,5% da empresa para um gigante multinacional. Ao lado da Black Rock, Vanguard, State Street e First Trust, a Invesco concentra o dinheiro do mundo com um único objetivo: gerar retornos para os acionistas.
Não é como o Banco Mundial, que envia dinheiro para países em dificuldades e promove programas de desenvolvimento urbano e rural.
A Ivesco e as outras asset managers atuam para engordar o caixa de fundos de pensão, fundações e megainvestidores – praticamente todos no Hemisfério Norte.
Alguns chamam essa atividade de neocolonialismo financeiro.
O presidente e CEO da Invesco chama-se Andrew Schlossberg (veja a foto dele acima) e mora em Atlanta, Georgia. Descobri que é apaixonado por futebol e pelo Chelsea porque morou longo tempo em Londres. Define sua atividade com uma frase curta: ”We are in the fiduciary business”.
Fiducia em latim quer dizer lealdade.
Lealdade ao investidor.
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P.S. – A Copel vai precisar de muito dinheiro nos próximos anos porque vive uma situação paradoxal: de um lado aumenta a demanda de energia com o desenvolvimento do Paraná; de outro suas geradoras estão a cada dia menos eficientes porque chegaram à idade provecta. Aos 60 anos, as hidrelétricas são obrigadas a trocar turbinas e geradores, além de aumentar os investimentos para desassorear as represas.
Cada dia me convenço mais que a British Broadcasting Corporation é um farol ético para a comunidade jornalística mundial.
Agora mesmo, o Diretor Geral da BBC, Tim Davie (acima) e a Chefe do Departamento de Notícias, Deborah Turness, tiveram que renunciar em consequência de deslize ético denunciado pelo jornal The Telegraph. Segundo a própria BBC, os dois se responsabilizaram pela edição maliciosa de falas de Donald Trump pouco antes da invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021, que foram ao ar no programa Panorama.
O Telegraph publicou detalhes de um memorando interno da BBC, que vazou na segunda-feira passada, sugerindo que o programa Panorama editou duas partes do discurso feito por Donald Trump dando a entender que ele encorajava explicitamente a rebelião do Capitólio.
No discurso feito em Washington no dia 6 de janeiro Trump disse: “Vamos caminhar até o Capitólio e aplaudir os nossos corajosos senadores e congressistas”.
Entretanto, na edição de Panorama ele foi visto dizendo: “Vamos caminhar até o Capitólio…e eu vou estar lá com vocês. E vamos lutar. Lutar como o diabo”.
São dois trechos de Trump que foram colados. O editor desprezou mais de 50 segundos de fala entre eles.
Trump reagiu aos pedidos de demissão dizendo que os diretores estavam renunciando para não serem despedidos “porque eles foram apanhados adulterando meu ótimo (PERFEITO!) discurso do dia 6 de janeiro”.
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As informações acima estão na capa do site de notícias da própria BBC. Agora, peço ao ocasional leitor para refletir comigo sobre a possibilidade de algo parecido acontecer na imprensa brasileira.
Imagine, por exemplo, o jornal O Globo informando ao mundo em primeira página que os responsáveis pela famosa edição adulterada do debate Collor versus Lula, na eleição de 1989, renunciaram ou foram admoestados.
Outra coisa: quem seria capaz de admoestar o doutor Roberto Marinho?